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Novelos e Novelas - Du Arte

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08
Mar17

13 07 O horário de trabalho

Artur Duarte

O horário de trabalho

Hoje fala-se muito em Portugal em aumentar o horário de trabalho. A ideologia dominante na Europa entende que a nossa falta de produtividade resulta em muito do facto de trabalharmos pouco tempo, e isto comparativamente aos países emergentes e até aos Estados Unidos.

Esta questão faz-me recordar uma conversa que tive há algum tempo com o meu tio João, que aos 93 anos tem uma experiencia de vida marcante e uma memória invejável. Contava-me ele que até aos anos 60, para preparar e semear uma terra com pouco menos de um hectare, demorava nas condições de trabalho de então uma semana a concluir esse trabalho. A terra era estrumada à força do engaço, depois lavrada a charrua puxada a bois – trabalho que para não cansar demasiadamente os animais era iniciado bem de madrugada – depois tinham de gradar e só depois se procedia à sementeira. Era um trabalho exigente e consumia muita mão de obra. Hoje com os meios existentes, a mesma operação demora menos de uma tarde, e requer muito menos pessoas. São inúmeros os exemplos desse tipo que poderíamos apresentar, desde os primórdios da revolução industrial onde se trabalhava sol a sol, muitas vezes os sete dias da semana, até aos dias de hoje, os meios técnicos e científicos postos ao serviço da humanidade, foram possibilitando a diminuição do período de trabalho. Com isso e com a evolução dos meios de comunicação, nasceram outras indústrias, como a do Turismo, e novas oportunidades foram criadas para o bem estar da humanidade. Portanto a diminuição do horário de trabalho representa um salto civilizacional importante.  

Há alguns anos a França de uma forma voluntarista tentou introduzir unilateralmente a semana de 35 horas, como essa medida não foi articulada com os outros países europeus e como não foram criados mecanismos de compensação como imposições de direitos de importação que nivelassem os custos relativamente a países onde ainda hoje se chega a trabalhar mais de 50 horas semanais, esta ação ainda que bem intencionada, não teve bons resultados. Entretanto o desemprego continua a aumentar numa espiral avassaladora.

Perante isto que fazem as cabeças pensantes da Europa? Tentam por todos os meios aumentar o horário de trabalho, engordando ainda mais as estatísticas do desemprego. Em Portugal como a moda é importada, via troika, não fugimos à regra. Em vez de alterarmos o nosso padrão de acordo com as novas condições técnicas e cientificas que dispomos, tentamos copiar aqueles que estão num padrão de desenvolvimento inferior ( não falamos das elites, mas do grosso da população ), tentando prosseguir a quimera de que um dia iremos concorrer com os chineses e indianos em pé de igualdade se reduzirmos os salários e aumentarmos os períodos de trabalho, desta forma as empresas que eles têm vindo a comprar um pouco por todo o lado voltarão a ser “competitivas”.

É desta forma que se vai paulatinamente destruindo os avanços civilizacionais conseguidos por muitas gerações que nos precederam.

Estaremos tendencialmente condenados a voltar à idade da pedra?

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